Meus dias

     Quando a gente não para tudo que vivemos no cotidiano, muita coisa passa desapercebida e vira rotina ou sem valor de importância. E, a gente vive muita coisa num dia só. Por exemplo, ontem no desafio dos 365 dias de escrita criativa eu fiz um texto sobre os meus domingos e depois de ter entregue, analisei o que eu escrevi e pensei nas suposições e hipóteses sobre o que a grande maioria faz nos seus domingos.

    Já teve o tempo que eu odiava estar em casa aos domingos vendo X pessoa deitada no sofá enquanto eu ficava na cozinha, na área de serviço, no quintal fazendo inúmeras tarefas e quando eu ia para cama estava extremamente cansada. Mas, a vida muda, eu mudei e tomei rumos diferentes por amor próprio.

    Escrever o texto ontem à noite me fez refletir sobre muitas mudanças na minha vida. O que um dia eu fui e o que eu fazia, o que eu sou e o que eu faço hoje.

    Ultimamente, nos meus domingos me priorizo, durmo sem o despertador tocar, acordo cedo, mas me espreguiço na cama, assisto alguns vídeos até a hora da natureza chamar porque até ela sabe que é domingo. Me levanto, faço toda a higiene necessária, aqueço meu pão integral e sem açúcar, passo o creme vegano de castanha, tomo minha água gelada. Me troco para passear com a Marezinha (nem todo domingo), volto para arrumar a cama, escrever minhas reflexões (nem todo domingo), recolho a roupa do varal, organizo as mochilas (duas), separo marmitas para a segunda, preparo o almoço deixando comida para o jantar, abro toda a casa (janelas e portas) para o vento entrar (quando tem vento) e para eu ver o céu do dia e da noite (tem feito lindos pôr-do-sol).

    Esses dias recebi um presente, um livro que estou lendo umas trinta páginas por dia, "Ikigai", ele também entra na rotina da semana.

    Aliás, na rotina da semana tem os planejamentos semanais da escola, a organização da agenda de atendimentos da psicologia, os treinos de natação, musculação e águas abertas (sim, treino em Santos) e gosto da minha rotina porque faço o que eu gosto mesmo com os contratempos das pessoas que não entende minhas ações e porque vejo resultados positivos principalmente no meu corpo). 

    Sobre os resultados, ampliando a visão, também a minha, tem pessoas que trabalham comigo (sem dar nomes) que não compreendem meus passos. Eu levo a psicologia para a educação e vice-versa, até mesmo para ensinar as crianças de 4, 5 e 6 anos a nomear seus sentimentos, aprender a reconhecer o que sente, colocar limites nos colegas e responsabilidade afetiva desde cedo para tornar-se um adulto mais feliz.

    Tem famílias que reclamam que a professora, no caso eu, dou bronca nas crianças, Elas veem como broncas, eu vejo como limites. E, não conseguem ver que eu também faço o acolhimento, que é o afeto. O pior é quando nesse movimento pedagógico e integral, uma gestão questiona minhas intenções e minhas ações. Eu digo que a sociedade está adoecida e a gestão está sendo gestão. Pedem acolhimento com as crianças, mas não sabem acolher e nem compreender o trabalho que eu faço. Por quê? Não querem ter trabalho comigo, não querem ter que pensar fora da casinha, porque é mais fácil criticar e julgar do que admitir que o meu trabalho é um excelente trabalho? 

    Ano passado fui chamada na gestão e ouvi a seguinte crítica: "você não controla seus alunos", e eu respondi "não estou aqui para controlar meus alunos e sim para construir relações saudáveis com eles". Você me perguntaria por que da minha resposta e eu te respondo: quando construímos as relações com quem quer que seja, além de você respeitar o outro, você está respeitando a si mesmo. Quando você constrói, você não impõe. Quando se constrói relações, constrói-se confiança, afeto, respeito, cumplicidade entre outras características essenciais para dizer o quanto eu te admiro.

    Hoje em dia está banalizada a humanização, porque as pessoas não de modo geral, pensam que pessoas transparentes, honestas, sensíveis, comprometidas e éticas não fazem parte da realidade de mundo porque não são a maioria. Qual é o valor que se dá a pessoas que não tem nada disso? Por incrível que pareça, as pessoas dão mais valor a aprender com um coach de relacionamentos do que um psicólogo, as redes sociais vendem a ideia de que para ser um psicoterapeuta não precisa fazer faculdade. 

    Hoje na escola, eu estou falando e orientando sobre a importância da diminuição do tempo nas telas para crianças tão pequenas que atendemos, de 4, 5 e 6 anos, enquanto uma gestão anda na contramão das informações vindas de especialistas porque são inseguras, se cobram demais enquanto mães e reproduzem os mesmos comportamentos das famílias.

    Eu me sinto a pessoa andando na contramão da massa e me orgulho por isso, tanto quanto pessoa, quanto como profissional que sou.

    Da mesma maneira que faço a diferença na vida de cada ser que atendo, procuro fazer a diferença na minha vida. Não assisto sensacionalismo na TV, leio o que me acrescenta na vida. Gosto de filmes, séries, leituras interessantes, escrever, nadar, criar, desenhar, cozinhar, viajar quando eu posso, ver amigas, almoçar inesperadamente mesmo que programada com antecedência.

    Quando dissemos que na escola todas os conflitos vão acontecer, significa que as crianças estão convivendo com os diferentes. E, não só as crianças, mas também os adultos e isso serve para que eu compreenda que as pessoas não pensam, não agem, não acreditam e não tenham as mesmas convicções que as minhas. Por isso, a gente tem o dever de ensinar as crianças desde pequenas a conviver com pessoas como nós, serem éticas, respeitosas.

    Esses dias uma família me procurou para dizer que o filho é líder nato e que eu não estou respeitando isso. Já vivi essa situação com a neta de uma professora aposentada que foi minha colega. Um dia o avô foi até a escola e eu me assustei com a sua presença porque naquele dia a neta não tinha ido à escola. Ele foi para dizer que a neta estava tendo febre emocional porque eu dei uma bronca nela e por ela ser líder nata eu deveria entender suas habilidades. Então, nosso diálogo começou. Eu sabia que ele era jornalista e perguntei se quando ele começou a trabalhar na área, o seu primeiro cargo foi de líder ou de chefe. Ele disse que não. Eu sabia que não, então eu falei que eu sabia da habilidade da neta dele e estava agindo da forma que eu agia por uma simples razão, ela precisa aprender a respeitar as pessoas antes de liderar para ser respeitada quando precisar. Minha explicação fez todo sentido na cabeça dele.  E, além da minha orientação, eu sugeri que a levassem ao médico para um diagnóstico por conta da febre alta. Dias depois, a criança voltou para escola, dentro da agenda tinha um atestado com o CID de infecção nas vias respiratórias e na reunião com as famílias, estavam presentes, a mãe e o pai da criança.

    É mais fácil julgar a professora do que avaliar o sentido da educação que essas crianças estão recebendo com suas famílias? Porque esses julgamentos estão transpondo das famílias para a gestão, que assumindo um cargo acima dos nossos, estão deixando a ética do profissional e trazendo o seu pessoal para o espaço da escola.

    Quando a professora mostra para a família que a parceria precisa acontecer, sabemos que não é bem assim porque quando mostramos para uma família que a criança não tem limites e que suas atitudes desrespeitam o relacionamento de uma turma inteira, mostramos para ela que a educação que ela dá em casa tem defeitos e isso a fere. Uma pessoa machucada, magoada, insegura, nem sempre pede ajuda à escola, mas se sente culpada de não ser uma boa mãe porque também está precisando fortalecer-se enquanto pessoa para exercer seu papel de mãe, de família de uma maneira diferente, na construção das relações saudáveis. Neste caso, sugiro, faça psicoterapia e se fortaleça enquanto pessoa, enquanto mulher porque o seu papel na sociedade é essencial para as relações com você mesma e sua família.

    Te deixo uma reflexão: você começa pequeno? Leia: Os Cinco Pilares do Ikigai é uma sugestão para você ampliar sua visão de mundo e se não quiser ler também é sua opção.



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